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Leis de privacidade derrubam Google na Europa
de Gustavo Rocha | Sexta, 21 de Novembro de 2008
Em 2004, quando o Google começou a fazer contratações para seu novo centro de engenharia em Zurique, na Suíça, oficiais locais receberam a companhia de braços abertos. E a chegada do Google ainda gera frutos em Zurique: 450 pessoas, 300 delas engenheiros, trabalham no complexo de sete andares da empresa, antes uma antiga cervejaria nos arredores da metrópole das montanhas plácidas.
Mas após quase cinco anos de expansão na Europa - onde a empresa tem sede em Dublin, Irlanda, grandes escritórios em Zurique e Londres, e pequenos centros em países como Dinamarca, Rússia e Polônia - o Google enfrenta uma série de leis de privacidade que ameaça seu crescimento e imagem positiva de uma companhia dedicada a fazer o bem.
Na Suíça, autoridades de proteção de dados estão silenciosamente pressionando o Google a desistir de seus planos de introduzir o Vista da Rua, um serviço de mapeamento que fornece panoramas fotográficos vívidos, de 360 graus e ao nível do solo, de qualquer endereço, o que violaria as leis de privacidade suíças, que proíbem o uso não-autorizado de imagens pessoais e de propriedades.
Na Alemanha, onde o Vista da Rua também não está disponível, o simples ato de tirar fotos para o serviço caracteriza uma violação das leis de privacidade.
“É provável que a questão da privacidade se torne cada vez mais importante para o Google, à medida que este continuar oferecendo novos serviços na Europa,” disse Dirk Lewandowski, professor de ciências da informação da Universidade de Ciências Aplicadas de Hamburgo. “No momento, a maioria dos usuários não tem consciência de que seus dados estão sendo utilizados pelo Google de uma forma ou de outra. Mas acredito que à medida que as pessoas se conscientizarem disso, poderão ocorrer protestos com os quais o Google terá que lidar.”
O conflito não se limita ao Vista da Rua, que até agora está disponível apenas para as principais cidades européias na França, Espanha e Itália.
Conselheiros de proteção de dados da Comissão Européia em Bruxelas, Bélgica, questionam o Google a respeito do tempo que a empresa retém registros de usuários - arquivos contendo termos de pesquisa digitados nos campos de busca do Google. Uma junta de reguladores deseja que o Google, bem como o Yahoo e a Microsoft, remova os registros após seis meses.
O Google alega que precisa dos dados por nove meses para aprimorar sua ferramenta de busca, que deve acompanhar as mudanças constantes de significado contextual devido a notícias e eventos. Antes de outubro, o Google retinha os registros por 18 meses na União Européia. O Yahoo mantém os registros por 13 meses e o MSN, serviço de busca da Microsoft, por 18 meses. Até agora, autoridades européias estão tentando persuadir o Google e as demais empresas a acatarem o período de seis meses, mas não descartam uma intervenção da comissão.
Nelson Mattos, vice-presidente responsável pelos 12 centros de engenharia do Google na Europa, Oriente Médio e África, disse estar confiante de que a companhia chegaria a um consenso com as autoridades. Em entrevista em Zurique, Mattos, brasileiro educado na Alemanha que trabalhou 15 anos na IBM antes de se juntar ao Google em 2007, disse que o Vista da Rua seria introduzido na Suíça e na Alemanha “em algum momento.” No entanto, ele se recusou a dizer quando isso ocorreria.
“O Google está comprometido em assegurar que os dados de seus usuários sejam protegidos e não usados indevidamente,” ele disse. “A Europa tem uma história de inovação. Mas ela não tem feito um bom trabalho em dar continuidade à inovação, em comercializar a inovação. Se restringirem muito a forma que uma companhia como o Google pode inovar, isso prejudicará a continuidade desses benefícios na Europa.”
Para aumentar sua visibilidade perante tomadores de decisão europeus, o Google reforçou sua presença em centros do governo ao longo da Europa. A companhia agora tem funcionários suficientes para preencher três andares de um prédio de escritório no centro de Bruxelas. Em cinco anos, o Google contratou cerca de 3.500 pessoas na Europa para sua sede regional em Dublin, seus grandes escritórios em Londres e Zurique, e pequenos centros em Krakow, Polônia; São Petersburgo, Rússia; e Aarhus, na Dinamarca.
Diversas das mais recentes inovações da companhia, como elementos de seu novo navegador Chrome, uma ferramenta analítica chamada Trends e um planejador de viagens de transporte público chamado Transit, foram concebidas ou aprimoradas na Europa.
O centro de engenharia de Zurique ajudou a acelerar o processo para colocar em operação o Video ID, um serviço de busca de vídeos automatizado que permite aos donos de direitos autorais de vídeos e músicas fazerem uma varredura no YouTube, o maior site de compartilhamento de vídeos online, para detectar uploads ilegais. O Google comprou o YouTube em outubro de 2006.
Introduzido há um ano, o Video ID é usado por 300 empresas, incluindo a Lionsgate Entertainment, Sony Music Entertainment e o canal italiano RAI. Em 90% dos casos, diz Patrick Walker, diretor de parceria do YouTube em Londres, as companhias optam por não bloquear os vídeos ilegais; ao invés disso, elas colocam anúncios próximos das transmissões de seu conteúdo, dividindo a receita com o YouTube.
“Isso basicamente permitiu pela primeira vez que todos os detentores de direitos autorais pudessem proteger seu conteúdo na web,” e na maior parte dos casos, acabou possibilitando uma nova forma para companhias ganharem dinheiro com seus arquivos. “Alguns dos avanços técnicos do Google estão começando a impressionar legisladores europeus.” Em uma conferência em Bruxelas no mês de outubro, a representante da comissão européia para assuntos relacionados à Internet, Viviane Reding, disse que o Video ID “assegura aos donos de direitos autorais a retomada da soberania sobre a exploração de seu trabalho.”
Na Suíça, o Google concordou em bloquear o Vista da Rua por agora, disse Bruno Baeriswyl, diretor da Privatim, a agência de privacidade do cantão de Zurique.
“Mas não sabemos quanto tempo isso irá durar” ele disse.
A agência de proteção de dados Edoeb também está em conversações com o Google, por causa da lei suíça que entrou em vigor em 1º de janeiro, obrigando todas as empresas na Suíça que mantém bancos de dados de indivíduos, como o Google, a revelar à agência como essa informação é gerenciada.
“Entramos em contato com o Google para discutir assuntos diversos,” disse Eliane Schmid, porta-voz da agência, chamada Eidgenössische Datenschutz- und Öffentlichkeitsbeauftragte. “Esses são contatos iniciais e, assim sendo, não têm natureza oficial. Por isso você deve entender que, por enquanto, os detalhes permanecem confidenciais.”
Na Alemanha, a oposição ao Vista da Rua é mais visível. Em Kiel, cidade na costa do Mar Báltico, autoridades ameaçam o Google com multas e distribuem aos residentes adesivos aconselhando os fotógrafos do Google a não tirarem fotos de suas propriedades para o Vista da Rua.
“O que o Google está fazendo com o Vista da Rua viola a lei alemã,” disse Marit Hansen, sub-diretor de Unabhängiges Landeszentrum für Datenschutz, em Schleswig-Holstein, estado em que Kiel se localiza. “Não basta apenas deixar de disponibilizar o Vista da Rua na Alemanha. O simples ato de tirar as fotos é em si uma violação.”
Usuários europeus parecem menos preocupados que alguns reguladores sobre a possível perda de privacidade. A ComScore, uma firma de pesquisa de Reston, Virgínia, constatou que oito em cada 10 europeus utilizam o Google para buscas online.
“As agências de proteção de dados tendem a ser radicais,” disse Peter Heinzmann, chefe-executivo da CN Lab, uma empresa suíça que produz software para webcams. “Mas a maioria das pessoas está voluntariamente fornecendo informações ao Google porque acredita que os benefícios superam os riscos. Então por que restringir a inovação?”
Tradução: Amy Traduções
The New York Times
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